sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Filha Estrangeira

Dá que pensar... 


A Filha Estrangeira, um livro de Najat El Hachmi, foi-me gentilmente cedido para opinião pela Bertrand Editora e, por isso, agradeço o gesto e a oportunidade de ler esta obra e dar o meu parecer. 

Penso que, conhecendo a autora e as suas origens, poderemos entender melhor de que trata o livro. Najat El Hachmi mudou-se, aos oito anos, com a família para a Catalunha, sendo oriunda de Marrocos. Estudou literatura na Universidade de Barcelona e, atualmente, tem títulos publicados e traduzidos em várias línguas. 



Em A Filha Estrangeira acompanhamos o percurso de vida de uma jovem marroquina que, desde cedo, viveu na Catalunha, longe do seu país de origem. A sua única família nesse lugar era a sua mãe, uma mulher tipicamente marroquina, que, apesar da distância, seguia as tradições à risca. 

Esta rapariga quase que se considerava estrangeira. Como é óbvio, é estrangeira na Catalunha, mas também se sentia assim relativamente ao país que a viu nascer, ao país da sua mãe. Isto, em parte, porque os pensamentos já quase não lhe apareciam na "língua da sua mãe", que era como ela se referia ao seu dialeto de origem. Pensava que estava a trair a sua mãe ao pensar dessa forma, ao distanciar-se, assim, de uma língua que lhe dizia tanto. 

Apesar de tudo, sentia-se sortuda e, de certa forma, livre, uma vez que pôde escolher o seu noivo. Não iria casar por amor, mas regressaria ao país, que agora era apenas o de sua mãe, para casar com o seu primo Driss. A sua família deu-lhe a opção de aceitar, ou não a mão desse seu primo em casamento. Ela, pensando que mais valia casar com alguém que conhecia desde sempre ao invés de um desconhecido, aceitou. 

Agora, a jovem e a sua mãe veem-se numa azáfama terrível: vão continuar emigradas, é Driss quem se mudará. Por essa razão, teriam de preparar o casamento, todos os documentos necessários, arranjar uma casa onde coubessem todos e, acima de tudo, trabalhar para poderem sustentar esse "primo-marido". 

Este livro revelou uma autenticidade fora do comum. Toda a obra se desenrola numa introspeção dessa rapariga. Nunca conhecemos o seu nome, o que me fascina ainda mais. 

A autora foi capaz de criar uma personagem tão genuína, tão real que nem precisa de nome. Fiquei, assim, com a sensação que esta rapariga podia ser qualquer uma. Poderia não existir, mas poderia, também, ser um espelho de milhares de raparigas em todo o mundo. Penso que a última hipótese assenta melhor. 

Ela não é ninguém, não tem nome, e, mesmo assim, a história cativa com a profundidade dos seus sentimentos. Não temos a visão de mais ninguém, vimos o mundo apenas pelos seus olhos. Chocam a maneira como pensa e a maneira como deveria pensar, a sua alegada liberdade em relação à verdadeira liberdade que os "não estrangeiros" usufruem. Este é um livro que denuncia a desigualdade aos olhos de quem a sofre e percebe que a sofre. 

A jovem não é ingénua. Sabe muito bem que poderia fugir e viver uma vida verdadeiramente feliz. Aliás, tenta fazê-lo, mas, pensando na sua mãe, deixa esse sonho para trás e regressa a casa e ao futuro que lhe está destinado. 

Nesta leitura convivemos com o amor incondicional de uma filha pela mãe. Esta rapariga sofre, abdica da sua vida para poder fazer a mãe feliz. A mãe que lhe deu a vida, a mãe que emigrou e lhe permitiu receber uma educação. A mãe analfabeta e triste... 

Revoltou-me a forma como a personagem é tão altruísta ao ponto de desistir de tudo o que a poderia fazer feliz para satisfazer os desejos da sua mãe. Uma mãe que, apesar de lhe ter dado muito, pediu ainda mais em troca. A rapariga desfez-se da única coisa que lhe era importante: a sua individualidade, a sua dignidade. 

Com uma linguagem simples, este livro é de leitura agradável, apesar de lenta. As páginas levam tempo a ler devido à pormenorização do ambiente e dos sentimentos da personagem: conseguimos visionar o seu mundo, dar cara a todas as personagens, imaginar cada local. Assim, é um livro cheio de imagem e cor, uma obra bonita e triste, repleta de dor e sofrimento e, também, coragem e cobardia. 

Sem dúvida, uma obra que marca pela sua autenticidade e pela verdade marcada nas suas páginas. Um livro para qualquer um que goste de histórias com valor. Uma reflexão intensa sobre os direitos que, supostamente, são de todos nós e que, mesmo assim, nem todos os recebem.

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